Quando falta tempo para os filhos, algo importante se perde

Somos a geração de pais que menos tempo tem para os filhos e, ao mesmo tempo, a que mais reclama dos filhos que tem.

Você já parou para pensar que, de fato, não temos tempo para os nossos filhos?

Ou estamos trabalhando, ou cuidando da casa, ou na academia, ou no celular… e, quando vemos, não há espaço na nossa rotina para o que é mais importante: a nossa presença ativa na vida das nossas crianças.

Conforme a neurociência no mostra, o córtex pré-frontal de uma pessoa só fica completamente formado por volta dos 25 anos. Crianças e adolescentes precisam de cuidados, orientação e supervisão nessas etapas da vida. Precisam de amor, carinho, incentivo e atenção — talvez a mesma atenção que você não teve e que agora precisa oferecer.

Educar filhos é como soltar uma cordinha

No começo, você segura firme. Seus filhos são pequenos e precisam de você para tudo. Conforme crescem, você vai soltando a cordinha.

Primeiro, comer sozinhos. Depois, tomar banho. Escolher o calçado para ir à escola. O tempo de tela. Dormir na casa de um amiguinho cujos pais você conhece. Tomar um sorvete sozinho na esquina de casa, com horário para voltar. Ir à festa de 15 anos de um amigo. Mais tarde, aos 18 anos, ir a uma festa com o carro da família, agora que já tem carteira de motorista.

E cada vez que algo que foi confiado não acontece conforme o combinado, puxamos a cordinha.
Sem gritos. Sem bater. Sem vitimização do tipo “eu faço tudo por essa família” ou “olha quanta ingratidão”.

Nada disso.
Precisamos assumir nosso papel e sermos autorresponsáveis dizendo: “o adulto da história sou eu e preciso analisar a situação”.

Não somos vítimas, somos responsáveis

Seu filho mentiu? Pergunte-se: “Por que meu filho não confiou em mim?”

Ele não chegou no horário combinado? Pergunte-se: “Por que meu filho tem dificuldade em cumprir o que combinamos? O que preciso fazer para que ele aja diferente?”

Sim, meus queridos e minhas queridas.

Nós não somos vítimas da educação dos nossos filhos. Nós somos responsáveis. Talvez ler isso doa, mas é o que é.

Nossos filhos aprendem mais pelo exemplo do que pelas palavras

Seu filho, sua filha, nasceu um bebezinho. O que aconteceu do dia em que ele nasceu até hoje para que esteja mentindo, enganando ou descumprindo combinados?

Uma das coisas mais difíceis de ouvir — e também das mais verdadeiras — é que nossos filhos aprendem nos observando. Eles percebem tudo.

Nós cumprimos o que combinamos com eles?
Quando você disse que iria comprar um brinquedo na volta, voltou mesmo?
“Ah, mas eu não tinha dinheiro naquele momento.” Ok. Mas por que não foi honesto e falou a verdade?

“Ah, eu não queria ver ele chorar.”
Não é que você não queria ver ele chorar. Você não saberia como lidar com a frustração do seu filho e escolheu o caminho mais fácil: mentir.

Nossos filhos precisam aprender a lidar com frustrações. A nossa função não é evitá-las, mas sim, ajudá-los a se regularem emocionalmente.

É se abaixar, olhar nos olhos e dizer:
“Eu sei que você está triste porque gostaria de ter esse brinquedo. Hoje não podemos comprar, mas quem sabe você pode economizar mais um pouquinho e comprar com o dinheiro do seu cofrinho? Agora você quer um abraço?”

Frustração também educa

Não é sobre dar tudo o que eles querem. É sobre ser honesto, falar a verdade com empatia, respeito, voz calma e paciente.

Eu sei que, quando você vê, está gritando, se descontrolando… mas isso não fala sobre seu filho. Isso fala sobre você.

Depois dos 18 anos, nossos filhos ainda precisam de nós.
De outro jeito, é verdade. Mas precisam.

É o olhar atento. A orientação. Perceber se está tudo bem. Pode ser que o início da vida adulta esteja pesado e ele precise de ajuda.

Psicólogos falam sobre o luto infantil — uma tristeza ao perceber que a fase infantil terminou e a adulta está começando. É o medo do desconhecido, de não dar conta do trabalho, do estudo. E nós, pais, entramos oferecendo apoio, ajuda e, quando necessário, suporte psicológico.

Família se constrói no cotidiano, não no discurso

Lembra quando enchemos a boca para dizer que a família é nosso bem mais precioso?
Será que estamos demonstrando isso no dia a dia?

Muitas vezes precisamos aprender a dar o que não tivemos.
E nossos pais também não tiveram — e por isso não nos deram.

Precisamos quebrar o ciclo do “cala a boca, fica quieto” para o “senta aqui meu filho, você está triste hoje?”.

Mas só conseguiremos fazer isso se largarmos o celular e mudarmos o foco do nosso olhar.
Sim, guardar o celular. Reclamamos que nossos filhos estão viciados em celular, mas sinceramente, muitas vezes também estamos.

Nossa geração é a que mais reclama dos filhos e a que menos tem tempo para educar

Aí complica.
A conta não fecha.

Queremos filhos educados, responsáveis, amáveis e atenciosos, mas não temos dez minutos por dia para estar verdadeiramente presentes com eles.

Pergunte-se: Se eu não tenho tempo, quem está educando meus filhos hoje?

E não adianta dizer que passa o dia inteiro com eles. Estou falando de tempo de verdade. Aquele tempo em que tudo para e só existe ele na sua frente.

Eu sempre tive dificuldade em brincar com nossos filhos. Era amorosa, mas me entediava fácil. Sabia que era importante, mas confesso que não sabia o quanto.

Então, se você tem filhos pequenos, brinque. Conte histórias. Diga que ama.
Se eles são adolescentes ou jovens, também precisam de tempo.

Passei muitos anos focada em trabalhar, estudar e nas minhas ideias sonhadoras. Hoje percebo o quanto poderia ter conversado mais.

Ainda bem que sempre é tempo!

Hoje estou desacelerando e dando mais atenção a momentos simples e cheios de amor. Conversamos, rimos e, às vezes, choramos juntos — num café da manhã de sábado, no almoço de domingo ou comendo pipoca.

É sobre dar atenção ao que realmente importa.
E isso só acontece com presença.

É melhor dez minutos totalmente presente do que um dia inteiro junto, mas ausente. Você me entendeu, né?

Nunca é tarde para ser mais presente

Não se julgue. Não se culpe.
Mas, a partir de hoje, bata no peito e diga: “Sou responsável pela educação dos meus filhos, não sou vítima dela.”

Pode doer agora, mas é necessário.
Sua família merece um pai e uma mãe responsáveis e presentes.

E, se precisar, busque ajuda. Existem muitos profissionais que cuidam de quem cuida, para que possamos cuidar melhor.

Nunca seremos perfeitos, mas podemos ser um pouquinho melhores todos os dias.

Se estas palavras chegaram até você, talvez não seja por acaso.
Talvez seja apenas o momento certo de olhar para a vida com um pouco mais de gentileza.

Siga no seu tempo.
Faça escolhas possíveis.
Cuide do que realmente importa.

E, sempre que precisar, volte!

Aqui é um lugar de pausa, de sentido e de recomeço.

Fiquem bem!

Com carinho,
Marcia